ONGs em El Salvador: 20 Anos de Provas Contra Bukele
Vinte anos de evidências que desmontam o argumento favorito do governo Bukele — Onde estavam as ONGs? Aqui estão os fatos.
Ruth lleva ... días detenida arbitrariamente
Há uma pergunta que o governo salvadorenho costuma repetir como se fosse um argumento. Aparece em coletivas de imprensa, em contas oficiais, na boca de funcionários sempre que uma organização de direitos humanos publica um relatório incômodo:
"Onde estavam as ONGs quando as gangues matavam nossas famílias?"
A pergunta soa devastadora. Foi feita para soar assim. É construída para gerar vergonha, para colocar na defensiva quem documenta os abusos do Estado, para sugerir que criticar o regime é hipocrisia de quem olhou para o outro lado enquanto o crime devastava comunidades inteiras.
O problema é que a pergunta se baseia em uma mentira.
Não uma omissão, não uma imprecisão, não uma perspectiva diferente. Uma mentira documentada, verificável e refutável com nomes, datas, relatórios e decisões judiciais. É essa documentação que vem a seguir.
2003-2004: as ONGs estavam nos tribunais, contestando a repressão
A primeira grande política de segurança moderna contra as gangues se chamou Mano Dura (Mão Dura). Foi promovida pelo presidente Francisco Flores em 2003. Sua promessa: prender qualquer pessoa com tatuagens ou sinais de vínculo com gangues. Seu resultado: mais de 20.000 pessoas presas, das quais 91% foram libertadas sem acusação por falta de provas.
Enquanto o Estado comemorava os números de prisões, a FESPAD (Fundação de Estudos para a Aplicação do Direito) apresentou contestações constitucionais contra a Lei Antimaras. Não o fez em silêncio: argumentou perante a Corte Suprema de Justiça que a lei violava a Convenção sobre os Direitos da Criança e criminalizava jovens por sua aparência, não por seus atos.
A Corte concordou. A lei foi declarada inconstitucional.
As ONGs não estavam olhando para o outro lado enquanto as gangues cresciam. Estavam nos tribunais documentando que políticas de repressão em massa sem processo judicial não eram apenas ilegais — estavam alimentando o problema.
2004: a CIDH já sabia o que acontecia nas prisões
Em agosto de 2004, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos emitiu um comunicado sobre a violência carcerária ligada a gangues no Centro Penal La Esperanza. Não foi o último. Foi o primeiro de uma série que se estenderia por quinze anos.
No mesmo ano, a organização Las Dignas começou um monitoramento sistemático de feminicídios por meio da imprensa. Não havia, na época, sistema oficial de registro. O Estado não contava os corpos de mulheres assassinadas com a mesma diligência com que contava outras estatísticas. As organizações de mulheres fizeram isso por ele.
2006-2009: os relatórios que ninguém queria ler
Em novembro de 2006, a WOLA (Washington Office on Latin America) publicou Youth Gangs in Central America, uma análise que desmontava a lógica da Mano Dura com dados: as prisões em massa não reduziam a violência. As gangues se fortaleciam dentro das prisões. As deportações vindas dos Estados Unidos alimentavam o recrutamento. A política pública produzia exatamente o oposto do que prometia.
Em 2007, a WOLA e a Harvard Law School publicaram No Place to Hide: Gang, State, and Clandestine Violence in El Salvador, expondo simultaneamente a violência das gangues e a violência extrajudicial do Estado — duas faces do mesmo fracasso institucional que as comunidades viviam diariamente.
Em 2009, o programa POLJUVE — promovido pela FESPAD e pela Interpeace com apoio da AECID espanhola — publicou Youth Violence, Maras and Gangs in El Salvador. Seu diagnóstico era claro: El Salvador investia mais em punição do que em prevenção. Mais em prender do que em educar. Mais em reagir do que em construir condições de vida dignas para a juventude.
Ninguém no poder queria ouvir essa análise. As ONGs a publicaram mesmo assim.
2009-2010: as Dignas conseguem o que o Estado não fez em décadas
Em julho de 2009, a rede feminista REDFEM — formada por Las Dignas, Las Mélidas, ORMUSA e CEMUJER — apresentou à Assembleia Legislativa o projeto da Lei Especial Integral para uma Vida Livre de Violência para as Mulheres (LEIV). Foi aprovada em novembro de 2010.
Foi a primeira lei na história do país a reconhecer o feminicídio como categoria criminal específica, obrigando o Estado a registrar e processar sistematicamente a violência de gênero. As organizações de mulheres haviam documentado por anos o que o Estado nem sequer queria nomear: que as gangues forçavam casamentos com meninas de até 12 anos, que usavam a violência sexual como instrumento de controle territorial, que matavam mulheres sem motivo algum.
A lei existe porque as ONGs a impulsionaram. O Estado a ignorava havia décadas.
Em junho de 2010, a gangue Barrio 18 incendiou dois micro-ônibus em Mejicanos, matando 19 pessoas. As organizações de direitos humanos contextualizaram o que a imprensa apresentou como um evento isolado: 217 motoristas e trabalhadores do transporte haviam sido assassinados nos 18 meses anteriores, vítimas de uma extorsão sistêmica que o Estado tolerava ou ignorava.
2012-2014: a trégua, os mediadores civis e o ACNUR chegando às portas
Em março de 2012, mediada pelo ex-guerrilheiro Raúl Mijango e pelo bispo Fabio Colindres, foi anunciada uma trégua entre o MS-13 e o Barrio 18. Os homicídios caíram drasticamente. O IUDOP da UCA realizou pesquisas de opinião pública. A OEA se uniu como observadora internacional. A sociedade civil foi parte ativa do processo.
Quando a trégua ruiu em 2014 e os homicídios voltaram a subir, as organizações de direitos humanos já documentavam a deterioração — e as causas estruturais que nenhuma trégua, por si só, conseguiria resolver.
Em março de 2014, o ACNUR publicou Children on the Run, resultado de entrevistas com 404 crianças centro-americanas detidas na fronteira dos EUA. A conclusão foi devastadora: 58% das crianças salvadorenhas tinham necessidades específicas de proteção internacional, principalmente por causa da violência de gangues. Não eram migrantes econômicas. Eram refugiadas fugindo de um terror que o Estado não podia ou não queria controlar.
2014: nasce a Mesa da Sociedade Civil — uma coalizão de 13 organizações
Diante da ausência total de políticas para enfrentar o deslocamento interno, mais de uma dezena de organizações tomaram a iniciativa que o Estado se recusava a tomar. A Mesa da Sociedade Civil contra o Deslocamento Forçado pela Violência foi formada em 2014 com a participação da Cristosal, IDHUCA, FESPAD, SSPAS, MSF, Save the Children, World Vision, a Cruz Vermelha, o Conselho Norueguês para Refugiados e outras.
Em janeiro de 2015, a Mesa enviou uma carta formal ao Secretário-Geral da ONU denunciando a crise do deslocamento. O Estado salvadorenho nem sequer reconhecia oficialmente que o problema existia.
Em outubro de 2015 — ano em que El Salvador se tornou o país mais violento do mundo fora de zonas de guerra ativa —, a Mesa apresentou formalmente o tema perante a CIDH, em Washington.
As ONGs não estavam observando de fora. Estavam construindo a arquitetura de resposta que faltava ao Estado.
2015: o ano mais violento. 6.656 mortos. ONGs no terreno.
103 homicídios por 100.000 habitantes. Essa foi a taxa em 2015. Em 23 de agosto daquele ano, 52 pessoas foram assassinadas em um único dia. Entre 2009 e 2019, mais de 41.000 salvadorenhos perderam a vida em um país que tecnicamente não estava em guerra.
Nesse mesmo ano, o governo do presidente Sánchez Cerén lançou o Plan El Salvador Seguro (Plano El Salvador Seguro), com participação da sociedade civil e o PNUD como secretaria técnica. O plano destinava 74% de seus recursos à prevenção — exatamente o que as ONGs vinham exigindo havia anos.
O IDMC estimou 288.900 pessoas deslocadas internamente no final de 2014. O International Rescue Committee elevou esse número para 324.000 em 2015 — 5,2% da população total do país.
A FUSADES publicou naquele ano um estudo que pesquisou 3.977 empresas: 22% das micro e pequenas empresas pagavam extorsão regularmente. 85% dos casos não eram denunciados por medo de retaliação. O custo total da violência equivalia a 16% do PIB — mais de US$ 4 bilhões por ano.
Ninguém teria esses números se a sociedade civil não os produzisse. O Estado não queria contá-los.
2016-2017: a Cristosal prova que o deslocamento existe. O Estado nega.
A Cristosal — a própria organização onde Ruth Eleonora López Alfaro trabalhava como diretora jurídica até sua prisão — havia passado anos documentando o que o Estado resistia em reconhecer: que centenas de milhares de famílias haviam sido expulsas de suas casas, bairros e municípios por ameaças de gangues.
Seu Informe sobre a situação de deslocamento forçado por violência generalizada (2016) não apenas documentou o papel das gangues: também revelou que 19 casos de deslocamento foram causados pelas Forças Armadas e 8 pela Polícia Nacional Civil. O Estado não era apenas vítima do problema. Em alguns casos, era parte dele.
Em 2017, a Cristosal já havia atendido centenas de famílias deslocadas e confirmado que as gangues eram responsáveis por 83% do deslocamento documentado.
2017-2018: a ONU chega a El Salvador com dados que as ONGs colocaram em suas mãos
Em agosto de 2017, a Relatora Especial da ONU sobre Deslocamento Interno, Cecilia Jiménez-Damary, visitou El Salvador. Chegou preparada com dados da Cristosal e da PDDH. Chamou a situação de "tragédia oculta" e instou o Estado a agir com urgência.
Seis meses depois, em janeiro de 2018, a Relatora Especial sobre Execuções Extrajudiciais, Agnes Callamard, iniciou uma visita oficial. O que encontrou estava precisamente documentado: as mortes de supostos membros de gangues às mãos da polícia haviam passado de 103 em 2014 para 591 em 2016. Um aumento de 474% em dois anos. Callamard chamou isso de "um padrão de comportamento equivalente a execuções extrajudiciais."
Esse padrão havia sido documentado primeiro pelo IDHUCA, pela SSPAS e pela Cristosal. A ONU chegou com perguntas. As ONGs salvadorenhas tinham as respostas.
Julho de 2018: uma decisão histórica que o Estado não pode apagar
Em 10 de julho de 2018, a Câmara Constitucional da Corte Suprema de Justiça emitiu uma decisão sem precedentes na história salvadorenha: ordenou ao Estado que reconhecesse oficialmente o deslocamento forçado interno e legislasse proteções para as vítimas.
A decisão foi resultado direto dos amparos (recursos) apresentados pela Cristosal em nome de seis famílias deslocadas que haviam documentado com essa organização as ameaças que as forçaram a fugir. Não foi um presente do Estado. Foi uma vitória arrancada pela sociedade civil após anos de trabalho silencioso e metódico nos bairros mais perigosos do país.
A lei de proteção às pessoas deslocadas internamente foi aprovada em fevereiro de 2020. Ela existe porque as ONGs a tornaram possível.
2017-2019: Médicos Sem Fronteiras retorna a El Salvador por uma emergência humanitária
Quando Médicos Sem Fronteiras (MSF) decide abrir operações em um país, é um sinal que não pode ser ignorado. A MSF voltou a El Salvador em 2017 especificamente por causa da violência das gangues. Operou em bairros de San Salvador e Soyapango aos quais as próprias equipes de saúde pública não podiam acessar com segurança.
- 2018: atendimento a mais de 9.300 pessoas. Apoio em saúde mental a 1.434 pacientes, 57% vítimas diretas de violência.
- 2019: assistência a 71 vítimas de violência sexual. Milhares de consultas em áreas de acesso restrito controladas por gangues.
A MSF também publicou o documento de posicionamento El Salvador is not a safe country for refugees or asylum seekers em 2019, dirigido especificamente aos governos dos EUA e do México, que devolviam salvadorenhos a um país que, segundo a própria organização, representava um risco documentado para suas vidas.
As ONGs não estavam em reuniões em salas com ar-condicionado. Estavam em Soyapango. Nos bairros aos quais o Estado não entrava.
O registro completo: mais de 30 organizações, mais de duas décadas
| Organização | Tipo | Principal Contribuição |
|---|---|---|
| Cristosal | Nacional | Documentação do deslocamento forçado; decisão constitucional de 2018 |
| FESPAD | Nacional | Contestação da Lei Antimaras; documentação de desaparecimentos |
| IDHUCA (UCA) | Nacional | 377 casos em 2018; documentação de execuções extrajudiciais |
| SSPAS | Nacional | 22 anos de análise de política de segurança; dados perante a CIDH |
| ORMUSA | Nacional | Observatório de feminicídios; 286.415 eventos violentos documentados |
| Las Dignas | Nacional | Monitoramento de feminicídios desde 2004; impulso à LEIV |
| Human Rights Watch | Internacional | Capítulos anuais do World Report; relatório Deported to Danger |
| Anistia Internacional | Internacional | Cobertura anual; designação de presos de consciência |
| CIDH | Internacional | Comunicados desde 2004; visita in loco em 2019; relatório abrangente em 2021 |
| ACNUR | Internacional | Children on the Run (2014); Women on the Run (2015) |
| WOLA | Internacional | Youth Gangs in Central America (2006); No Place to Hide (2007) |
| MSF/Médicos Sem Fronteiras | Internacional | Operações de campo 2017-2019; milhares de pacientes atendidos |
A resposta que o governo não quer ouvir
Onde estavam as ONGs quando as gangues matavam?
Estavam nos tribunais, contestando leis que criminalizavam jovens por suas tatuagens.
Estavam nos bairros de Soyapango, onde Médicos Sem Fronteiras atendia vítimas que o sistema de saúde não conseguia alcançar.
Estavam em Genebra e em Washington, apresentando à ONU e à CIDH os dados que o Estado salvadorenho não queria que ninguém tivesse.
Estavam na Câmara Constitucional, conquistando em 2018 o primeiro reconhecimento judicial do deslocamento forçado interno — um problema que o Estado negava havia anos.
Estavam documentando 450.000 pessoas deslocadas, quando o governo nem reconhecia que o fenômeno existia.
A pergunta "onde estavam as ONGs?" não é uma pergunta honesta. É uma manobra retórica destinada a deslegitimar quem hoje documenta as violações do regime atual — o mesmo regime que prendeu Ruth Eleonora López Alfaro em 18 de maio de 2025, precisamente porque sua organização, a Cristosal, havia passado anos fazendo exatamente esse trabalho.
Não é coincidência que Ruth trabalhasse na Cristosal. Não é coincidência que a Cristosal esteja hoje exilada. Não é coincidência que o governo que persegue as ONGs seja o mesmo que pergunta onde elas estavam.
As ONGs estavam onde o Estado se recusava a estar. Por isso o Estado as persegue.
Fontes e referências documentais
- Cristosal. Informe sobre a situação de deslocamento forçado por violência generalizada em El Salvador (2016)
- FESPAD / Interpeace / POLJUVE. Youth Violence, Maras and Gangs in El Salvador (2009)
- PDDH. Relatório Preliminar sobre Deslocamento Forçado por Violência (2017)
- Human Rights Watch. Deported to Danger (fevereiro de 2020)
- ACNUR. Children on the Run (março de 2014)
- ACNUDH. Comunicado de Cecilia Jiménez-Damary sobre El Salvador (agosto de 2017)
- ACNUDH. Agnes Callamard, End of Mission Statement El Salvador (fevereiro de 2018)
- WOLA. Youth Gangs in Central America (novembro de 2006)
- MSF. El Salvador 2018 Activity Report
- CIDH. Situação dos direitos humanos em El Salvador (outubro de 2021)
- El Faro. PDDH: Polícia executou 116 pessoas entre 2014 e 2018 (agosto de 2019)
Este artigo foi elaborado pela equipe do LibertadParaRuth.org com base em documentação pública verificável. Você tem informações adicionais ou correções? Escreva-nos em: contacto@libertadpararuth.org
Ruth lleva ... días detenida arbitrariamente